“Debaixo dos Arcos” foi, e ainda é, o primeiro blogue não virtual de Aveiro. Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada": o centro do mundo...
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05 novembro 2011

Onde pára a mobilidade sustentada?!

À boa maneira portuguesa (mais um argumento da responsabilidade criminal para além da política) o projecto tinha que envolver casos de gestão danosa, de aproveitamento pessoal, por parte de dois gestores, de fundos e dinheiros públicos cujo gravidade é “colossal” mas que se ficou por uma devolução da quantia usada em benefício próprio.
Mas à parte disso e do facto de em 15 anos de existência do projecto terem passado pela Metro Mondego sete conselhos de administração e cinco directores executivos (num ping-pong governamental para assegurar os tradicionais “jobs for boys”), o relatório do Tribunal de Contas é extremamente duro e crítico em relação ao projecto enquanto investimento e factor de mobilidade.
Os números são claros: vários municípios e espaço urbano completamente degradado como consequência de irrisórios quilómetros de carril levantado. Ou seja, inutilizada a anterior linha, privados os cidadãos do transporte que tinham, deteriorados muitos espaços urbanos em vários concelhos.
Além disso, 104 milhões de euros já foram gastos e representam 85% do valor do projecto inicial, sem que se vejam resultados práticos do investimento realizado. Por outro lado, o primeiro estudo de viabilidade foi aprovado três anos depois e referia que o investimento necessário seria de 122,8 milhões de euros. No entanto, em Janeiro deste anos, a previsão aponta para um custo superior a 455 milhões, ou seja quatro vezes mais.
O relatório refere ainda que o projecto começou sem “um documento técnico que mostrasse a viabilidade técnica, económica e financeira do projecto (sustentabilidade), nem estava estimado o impacto que teria na mobilidade da região”, mesmo quando são conhecidos 10 milhões de euros em projectos e estudos.
Por último o relatório refere ainda um outro dado relevante: o arrastar do projecto, as constantes mudanças de política e orientações, de objectivos e de gestão, demonstram que o projecto não era tão importante e significativo para a região, nem teria um impacto significativo na mobilidade dos cidadãos dos vários concelhos abrangentes.
Mas tudo isto leva-me a outra realidade. Ao “alarido” produzido, nomeadamente em Aveiro, em relação ao eventual encerramento da linha do Vouga. Já demonstrei em “O fim da linha” a minha opinião sobre a questão da Linha do Vouga.
Para ilustrar melhor o que argumentei, e face a esta realidade do Metro do Mondego, dizer que acompanhei um estudo, com cerca de 3 anos, para eventual recuperação da linha e transformação em metro de superfície entre Aveiro e Águeda. Deixando de parte os valores do investimento que até poderiam ser comportados por fundos europeus a 100% (algo que não é usual, já que normalmente rondam os 80%), para que o sistema fosse minimamente (repito – minimamente) sustentável, era necessário que o sistema transportasse mais de 50 mil passageiros por mês, contra os actuais entre os 15 mil e os 20 mil. Veja-se ainda o caso dos prejuízos no metro do Porto. O país não tem qualquer capacidade de resposta para estes investimentos públicos.
Encontrem-se outras alternativas mais viáveis.

19 outubro 2011

Há vida para além do défice...

Publicado na edição de hoje, 19.10.2011, do Diário de Aveiro.

Preia-Mar
Há vida para além do défice…


Esta é uma frase bastante badalada desde há anos mas que vem à memória colectiva sempre que se discute orçamentos, contas, crises, finanças e economia. Na actual agenda política onde o Orçamento do estado, a crise e as contas públicas marcam o dia-a-dia do país, a frase não poderia parecer mais fora do contexto. No entanto, sem pretender desviar os “olhares” e as “emoções” da verdadeira realidade e o futuro próximo do país, entendo ser oportuno fazer uma “pausa” e deslocar as atenções para outras vertentes e existências do nosso quotidiano. Veja-se o caso de Aveiro, de forma, mais ou menos, telegráfica, no que toca à mobilidade e à economia.
No final do mês de Setembro o ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, anunciou (mais tarde apresentado oficialmente) o programa nacional de transportes. Neste programa está incluída a reformulação do projecto TGV para dar preferência ao transporte misto (passageiros e mercadorias, adoptando a bitola europeia, o que significa alargar os seus “horizontes”. Face ao esforço na concretização de estruturas importantes para o desenvolvimento da economia da região, como são o caso do Porto de Aveiro, a plataforma logística de Cacia, a instalação da futura fábrica das baterias Nissan/Renault, o alargamento da fábrica da Portucel, entre outros, é significativo para a renovação da importância e peso de Aveiro e da região, na centralidade do país, que seja contemplada com uma das ligações agora previstas para a Alta Velocidade, ligando Aveiro a Salamanca. Mas não há bela sem senão.
 É que a semana iniciou-se com uma machadada na mobilidade e acessibilidade de e para Aveiro. Apesar do ministro Miguel Relvas, a propósito da reforma da administração local, defender a intermunicipalização e o redimensionamento dos serviços, o plano nacional de transportes prevê o encerramento da totalidade da Linha do Vouga (ramal Aveiro-Águeda-Macinhata e Albergaria-Oliveira de Azeméis-S.João da Madeira-Espinho).
No caso do ramal Aveiro – Águeda é sabido que os baixo níveis da procura criavam, ano após ano, dificuldades de sustentabilidade do serviço de exploração (confinado, essencialmente aos movimentos na estação de Aveiro e de Águeda, e com expressão muito reduzida, por exemplo, no concelho de Aveiro, entre Eirol e a cidade). Mas se esta era aliás uma realidade já por diversas ocasiões tornada pública, nomeadamente, em alguns estudos técnicos, deveria ter havido uma preocupação mais célere em “atacar” o problema e projectar o futuro da linha do Vouga. Mas o tempo passou e a realidade foi-se agudizando, empolgada com o agravamento da crise.
Mas a verdade é que é chegada a altura, eventualmente pelas piores razões, de se pensar o futuro da linha do Vouga. Não só no que respeita à sua realidade física, à sua história, mas igualmente no que concerne à sua vertente social e económica, ou seja, às alternativas de mobilidade e acessibilidade dos cidadãos que se deslocam, ao caso, entre Aveiro e Águeda. Seja por razões laborais, profissionais, comerciais, escolares ou, simplesmente, de lazer.
É que não encontrar alternativas válidas e eficazes, significa um definhar de um eixo social e económico demasiado importante para a região como é a ligação de Aveiro a Águeda.
Face à conjuntura económica, às medidas de austeridade e à redução de transferências de verbas para a administração local (menos cerca de 116 milhões de euros no Fundo de Equilíbrio Financeiro e menos cerca de 13 milhões de euros no Fundo Social Municipal) é muito pouco provável que o Governo pondere, positivamente, a construção do eixo rodoviário Aveiro-Águeda.
Desta forma, a mobilidade entre estas duas cidades fica agora condicionada e reduzida ao “pesadelo” das estradas nacionais e à debilidade da alternativa através do transporte rodoviário público.

14 setembro 2011

A mobilidade passou de moda?

Publicado na edição de hoje, 14 de Setembro, do Diário de Aveiro.

Preia-Mar
A mobilidade passou de moda?


Este ano, a comemoração da “Semana Europeia da Mobilidade” e o “Dia Europeu Sem Carros na Cidade” celebram dez anos. Uma data (dita “redonda”) que relança a discussão sobra a importância e a vitalidade da mobilidade para o desenvolvimento sustentável das cidades e para a melhoria da qualidade de vida no espaço urbano.
Com enorme coincidência e curiosidade, o lema deste ano da Semana da Mobilidade 2011, que se realiza entre 16 e 22 de Setembro, é: “Mobilidade Alternativa”. Ou seja, soluções alternativas para a melhoria do espaço urbano, do ambiente e da qualidade de vida dos cidadãos, através, por exemplo, do recurso à mobilidade pedonal e ciclável, bem como a combustíveis e energias alternativas.
Focando-nos nos dois modos suaves de mobilidade (pedonal e ciclável), Aveiro tem feito algum esforço para a sua promoção: há três anos que a mobilidade saudável, com o projecto europeu Life Cycle (terminou a 31 de Maio deste ano), tem sido uma das acções mais prementes na área da mobilidade, e que deu origem a um novo projecto “Movimento Pedal Aveiro; e mais recentemente a aposta na mobilidade pedonal, com a parceria no projecto europeu ActiveAccess.
O projecto ciclável pretende promover alterações aos estilos de vida dos aveirenses, melhorando a qualidade de vida, a valorização do espaço urbano, o ambiente das cidades, através do recurso à bicicleta, nas pequenas e médias distância, no quotidiano dos cidadãos.
Já o programa pedonal pretende encorajar a circulação pedonal nas pequenas deslocações, reduzindo o consumo de energia e emissões, bem como a melhoria da saúde, a prosperidade do comércio tradicional e ainda o aumento do sentido de pertença a um lugar, reforçando os laços de vizinhança e sociabilidade, e um maior sentido de urbanidade.
A Mobilidade tem de deixar de ser uma moda para passar a ser, definitivamente, uma realidade, com a responsabilidade de todos: autarquia, entidades, empresas, comércio e, obviamente, cidadãos.
As cidades, mesmo as de dimensão reduzida como Aveiro, precisam de uma sustentabilidade e desenvolvimento que se estruture numa mobilidade que promova o desenvolvimento social e económico, a defesa do ambiente e da qualidade de vida, e de melhor urbanidade (espaço urbano mais eficaz).
A Semana Europeia da Mobilidade é uma clara oportunidade para promover este princípio basilar para a melhoria do ambiente urbano. Perder esta oportunidade é desvalorizar um dos objectivos principais da urbanidade e da socialização das cidades: a mobilidade! Mesmo que uma vez por ano… mas como diz o ditado: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.
Mas de forma abrangente, com dimensão, com pedagogia e sensibilização, à procura de públicos-alvo para determinadas e específicas acções. Em espaço urbano público, com especificidade (por exemplo, as vias urbanas mais movimentadas, as praças, os bairros), sem ser em locais descontextualizados do princípio e do objectivo, com visibilidade reduzida.
As políticas de implementação de uma verdadeira mobilidade urbana deveriam encarar o espaço urbano e o tempo como bens fundamentais e não supríveis, consentindo que respondessem a um conjunto de necessidades de deslocações dos cidadãos, para suster a ruína da qualidade de vida nas cidades, por mais pequenas que elas sejam.
É urgente que sejam implementadas medidas de restrição ou proibição do uso automóvel e alterações nos hábitos quotidianos dos cidadãos, reduzindo o efeito negativo sobre as cidades, o espaço e o meio ambiente.
Por fim, a mobilidade é, ao mesmo tempo, a causa e o efeito da sustentabilidade económico-social, da expansão urbana e da distribuição geográfica e consistência das actividades.

30 março 2011

A opção somos nós!

Publicado na edição de hoje, 30 de Março, do Diário de Aveiro.

Preia-Mar
A opção somos nós!



Por comodismo, por natura, por dificuldades diversas, temos sempre o “mau hábito” de “sacudir a água do capote” e ficar comodamente, mesmo que criticamente, à espera que o Estado, as Instituições, o Poder (nacional, regional ou local) resolvam todos e quaisquer problemas (apesar de reconhecer alguma incapacidade de resposta e de responsabilidade pelos estruturas de gestão da nação).
É este um estado generalizado, corrente, de grande parte da sociedade: criticamos, mas, ao mesmo tempo, resignamos. A título de exemplo…
Recentemente a Câmara Municipal de Aveiro lançou um vídeo promocional do uso da bicicleta (realizado por Miguel Mendes, apresentado em Sevilha e divulgado no Youtube – busca por “Aveiro Lifecycle”), enquadrado no âmbito dos objectivos de um projecto europeu de mobilidade saudável – Life Cycle – do qual a autarquia aveirense foi parceira oficial (o projecto termina no próximo mês de Maio). Durante cerca de dois anos, a coordenação do projecto promoveu um conjunto de iniciativas, ao nível das escolas, das empresas, da universidade, da comunidade aveirense em geral, com o objectivo principal de promover o uso da bicicleta como modo saudável de mobilidade no quotidiano dos cidadãos. Um modo saudável que passa pela questão da saúde, da qualidade de vida, da mobilidade e da melhoria do espaço urbano. Um modo saudável que promovesse a bicicleta e a colocasse em equidade com o automóvel no que respeita à mobilidade e ao direito ao uso do espaço urbano, nomeadamente nas vias rodoviárias.
Mas a verdade é que a generalidade das pessoas acha isto um facto importante, em muitos casos uma necessidade e uma urgência. Muitos dos que visionaram o vídeo acharam-no espectacular, muito bom… mas continuamos a ver as ruas de Aveiro com carros, a não termos sítio onde estacionar, a não haver espaço para uma mobilidade sustentável e sustentada.
E o que fazemos? Muitos de nós aveirenses, onde por “mea culpa, me incluo.
Criticamos, com razão, a falta de espaços verdes, de lazer, espaços que permitam que as crianças aprendam a andar de bicicleta (quando antigamente o fazíamos na rua – hoje, não se brinca na rua). Afirmamos que Aveiro é uma cidade plana, amiga do ambiente, ciclável.
Mas somos igualmente capazes de encontrar insegurança onde, na prática, ela não existe ou é uma percepção errada da realidade. Quão inconscientes são os milhares de estrangeiros que já experimentaram andar de bicicleta na nossa cidade?
Esperamos por uma BUGA e desculpamo-nos com um sistema que espera novo relançamento de imagem quando, hoje, é tão simples ter bicicleta própria.
Desculpamo-nos com as condições climatéricas. Desculpamo-nos com as exigências do dia-a-dia, stressante, preenchido com inúmeros afazeres pessoais e profissionais.
No fundo, tudo serve, para mantermos o conformismo, a rotina, a apatia e a resignação.
Como diz o texto promocional “(…) existe aquilo que tu escolhes fazeres porque tudo na vida são opções (…). Aveiro escolheu a bicicleta”. E nós?!

29 março 2009

Urbanidades

Publicado na edição de sexta-feira - 27.03.09 - do Diário de Aveiro.

Sais Minerais
Urbanidades.

As cidades ganharam novas dimensões. Não só em termos demográficos, como nas suas identidades culturais, sociais e políticas.
Até mesmo no seu tradicional contexto (delimitação) geográfico. A intermunicipalidade tem hoje uma perspectiva mais aberta e dinâmica, revelando o conceito fundamental de vizinhança.
O sentido de comunidade, de bairrismo (no seu sentido puro), os processos de socialização, as influências externas que pressionam os aspectos culturais e históricos (identidades) das localidades, alteraram profundamente o conceito de cidade, comunidade e urbanismo (na sua vertente social, arquitectónica, ordenamento e planeamento e ambiental).
As cidades cresceram a um ritmo elevado, em muitos casos, acima do previsto, do planeado e da capacidade de resposta.
Cresceram em extensão, demografia, em alterações de valores, na insegurança, na dificuldade de mobilidade dos cidadãos (trânsito, estacionamento, etc.). Claro que cresceram igualmente em aspectos positivos… agora, assim de repente, não me lembro quais, mas alguns haverá.
Mas o que me lembro é que, hoje, as cidades têm é falta de segurança, de espaço, de liberdade (no sentido de mobilidade), um menor aproveitamento do “espaço público”.
Não se joga à bola na rua, não se passeia e brinca sozinho (com os amigos) na rua, poucas crianças vão ao mini-mercado do bairro às compras, muitos poucos andam de bicicleta na rua (as crianças têm dificuldade em aprender a andar de bicicleta, em parte, por falta de espaços).
As ruas transformaram-se em espaços exclusivos dos automóveis.
As pessoas deixaram de respeitar a “diferença” dos outros, no que respeita à sua opção de mobilidade.
As pessoas tornam-se mais distantes, menos abertas, menos solidárias e menos participativas. Tornam-se mais indiferentes.
Daí que pareça ser importante que se mudem, igualmente, as mentalidades e a forma de as pessoas encararem a cidade e o espaço urbano.
E porque não começar pela mobilidade e pelo uso da bicicleta?!
É certo que há aspectos do quotidiano que nos condicionam: os filhos e a escola, o local de trabalho distante de casa, a segurança rodoviária, etc.
Mas há também aspectos que valem o esforço e a opção.
O andar de bicicleta dá-nos uma liberdade que não é, de todo, perceptível à primeira vista.
Podemos conhecer melhor a nossa cidade, olhá-la de outra forma e mais directamente.
Em pequenas distâncias, podemos ganhar tempo, sem estarmos presos no trânsito ou à espera do transporte público. Por outro lado, a bicicleta leva-nos para qualquer lado (serviço porta-a-porta)
Poupa-se dinheiro em combustível, em revisões mecânicas e protege-se o ambiente porque não polui e não ocupa espaço.
E acima de tudo, a bicicleta é um excelente meio de nos mantermos saudáveis e em forma.
Assim, faz sentido que as bicicletas “ocupem” um espaço que também é delas: a estrada e a rua.
Ao sabor da pena…

01 março 2009

Revitalizações...

Não "Vitalizações"... essas pertencem ao PS para a Europa.
São mesmo revitalizações, de voltar a vigorar e dinamizar.
Aveiro pretende voltar a ser a capital da bicicleta como factor de mobilidade saudável e sustentada.
LifeCyle - Aveiro, projecto europeu de mobilidade saudável com recurso à bicicleta, no quotidiano dos cidadãos.

28 setembro 2006

Contributo para a Mobilidade

Eu sei que é longo.
Mas a temática assim o exigia. E ainda faltaram alguns aspectos.
(publicado na edição de hoje - 28.09.06 - do Diário de Aveiro).

Post-its e Retratos
Contributo para uma mobilidade – A revolução.

Apesar de se celebrar desde 2001 e hoje já num número considerável de cidades lusas, o Dia Sem Carros na Cidade, contraditoriamente continua, ano após ano, a diminuir o número de utentes nos transportes colectivos e a aumentar o consequente volume do tráfego do automóvel particular.
Apesar do assinalar cíclico da causa, a política pública de mobilidade urbana no nosso país não se consegue desprender da supremacia de um único modo de transporte que é o automóvel, com os efeitos negativos para os seres humanos (segurança e qualidade de vida).
Para muitos usar automóvel para ir para o trabalho, ao cinema ou ao teatro tornou-se mais que uma necessidade um hábito. Ou melhor um vício. É indiscutível a comodidade que o automóvel traz a quem viaja nele.
Mas será ainda, nos dias de hoje, sustentável tal comportamento massificado.
As políticas de implementação de uma verdadeira mobilidade urbana, deveriam encarar o espaço urbano e o tempo como bens fundamentais e não supríveis, consentindo que os serviços públicos de transporte respondessem a um conjunto de necessidades de deslocações dos cidadãos, para suster a ruína da qualidade de vida nas cidades, por mais pequenas que elas sejam.
É urgente que sejam implementadas medidas de restrição ou proibição do uso automóvel como instrumento de gestão da mobilidade, reduzindo o efeito negativo sobre as cidades, o espaço e o meio ambiente. No fundo que seja garante da qualidade de vida e previna a saúde pública.
Como exemplo, os catalizadores que tecnicamente devem reduzir em cerca de trinta vezes o nível de monóxido de carbono dos carros – com relação directa com os problemas cardíacos e respiratórios – equipam apenas 10% dos carros em circulação no mundo.
Mas a ruína das cidades aplicada pelo automóvel, não se reduz apenas ao seu impacte ambiental.
A qualidade de vida associada à acessibilidade mobilidade e ao ordenamento urbano são factores, eventualmente, mais relevantes.
Na relação entre os sectores do vigor urbano, como as zonas habitacionais, a área laboral, o ensino, o lazer, o comércio, a mobilidade adquire um relevo primaz como um elemento de conexão, sem a qual se tornaria impossível o desenvolvimento sustentável de uma cidade ou região.
Por um lado, as movimentações das pessoas e mercadorias, influência os aspectos sociais e económicos do desenvolvimento urbano. Por outro lado, as necessidades dessas mesmas deslocações, é definida pela localização geográfica das várias actividades das cidades.
Deste modo, resulta que a mobilidade é, ao mesmo tempo, a causa e o efeito da sustentabilidade económico-social, da expansão urbana e da distribuição geográfica das actividades.
Então que sustentabilidade para uma mobilidade que confira um desenvolvimento integrado e uma qualidade de vida que devolva a cidade aos cidadãos?!
O Peão.
O sistema viário é composto, por passeios destinados aos peões e de estradas/ruas destinadas aos veículos.
Deve ser assumida a implementação de passeios nas vias de grande movimentação pedonais – em áreas centrais, áreas habitacionais de dimensão considerável e em áreas de lazer.
No restante sistema viário devem ser promovidas medidas de moderação do volume de tráfego e da velocidade de circulação, através, por exemplo, de ampliações, avanços e travessias de passeios sobre as vias dos automóveis.
Urbanismo.
A adopção de políticas de ordenamento do território que promovam o reordenamento dos espaços e das actividades urbanas, de forma a reduzir as necessidades de deslocação motorizada e seus custos inerentes, permitindo a descentralização, associada à diversidade, das actividades económicas, sociais e culturais no espaço urbano e não estimular o “zoneamento” de especialização.
Por outro lado, sendo necessária a deslocação, dar prioridade ao transporte colectivo sobre o individual, destinando ao primeiro espaços próprios, através da definição de corredores e faixas exclusivas, semaforização controlada e áreas destinadas à integração dos diferentes modos de transporte (intermodalidades).
Partindo da cada vez mais comum opção dos cidadãos de “fugir” das cidades, prever na expansão das áreas urbanas a implantação de um projecto viário integrado com as redes de transporte público existentes.
Espaços pedonais e estacionamento sobretaxado, diferenciado geograficamente e em função da sua proximidade com o centro urbano, e cujos recursos sejam destinados à melhoria do transporte público.
O Transporte Colectivo.
As medidas e políticas a adoptar fazem pender o seu sucesso da credibilidade e da adesão dos cidadãos à alteração dos seus hábitos e modos de vida. Esta alteração passa, essencialmente, pela sustentabilidade e promoção do uso do transporte colectivo.
Um transporte colectivo que promova a inclusão social, através da redução dos custos de transporte e tarifários diferenciados para sectores economicamente menos favorecidos.
Para que o transporte público seja uma opção clara para o cidadão, a sua eficiência e qualidade terá de ser uma prioridade, resultando numa adaptação social com ganhos evidentes.
Uma das vertentes da eficiência é o tempo de percurso que só poderá ser conseguido através de vias exclusivas para o uso do transporte colectivo permanentes ou em determinados horários, o encerramento parcial e temporal do acesso a áreas centrais e vitais da actividade urbana e o estímulo ao uso de tecnologia viária, permitindo melhores acessibilidades.
Igualmente relevante, numa realidade de movimentações que “obrigam” a vários sistemas de transporte, é a necessidade de se adoptar a intermodalidade (associando a ela o próprio automóvel), com áreas de estacionamento em parques periféricos, tarifas integradas e uma óbvia gestão unificada – trânsito e transporte público.
Uma nova cultura de mobilidade
Esta é uma nova realidade. Por mais acções que se façam, com mais ou menos impacto, a consciencialização pública, a alteração de modos e hábitos, através de um educação para a mobilidade é o factor primário para o sucesso de um melhor urbanismo e uma cidade mais desenvolvida.
A convivência e partilha de um espaço público comum na circulação urbana, dando prioridade aos modos de transporte colectivo, a pé e de bicicleta, em relação ao automóvel particular. Pela promoção da paz e cidadania no trânsito.
O que para muitos ainda é tabu, a qualidade de vida é fundamental para a sobrevivência de uma cultura e socialização urbanas. Deste modo é fundamental a promoção do desenvolvimento das cidades através de um conceito de transporte sustentável e ecológico, que faça uso das energias alternativas e renováveis, como o gás natural ou o biodisel.
Por outro lado, dando lugar à pluralidade e liberdade de opções, bem como à responsabilização colectiva, deverão ser adoptadas medidas e políticas claras, através de uma incisiva regulamentação do estacionamento. Com restrições ao uso do espaço disponível para estacionar, um aumento das áreas pedonais, restritas ao transporte colectivo e às bicicletas. Através de uma tarifação diferenciada e crescente para áreas cuja procura é superior à oferta e uma redução na oferta de estacionamento junto aos locais de trabalho.

Por fim, para atenuar o problema da mobilidade e da sua sustentação, reduzir a questão a um mero combate ao automóvel, é redutora e perigosa, bem como o “copy and paste” de realidades estrangeiras que não são minimamente conciliáveis com as nacionais, principalmente as culturais e sociais.
Não basta eliminar o automóvel quando não existem alternativas e estruturas complementares e integradas de transporte e de acessibilidade.
Nas grandes cidades, o espaço necessário para circular, estacionar, vender ou manter veículos, situa-se entre os 60% e os 70% do espaço urbano (segundo vários conceitos e especialistas).
Pouco a pouco as vias de circulação vão-se apropriando do espaço urbano. Os passeios, praças, espaços verdes e locais históricos vão cedendo lugar às ruas, avenidas e estacionamentos.
A educação é o principal elemento transformador da cidadania.
Esta deve-se voltar para uma educação na mobilidade que promova uma revolução de atitudes.

05 maio 2006

Semaforização temática

O tema teve honras de "post" no Aveiro Sempre do Pedro Neves e é hoje notícia no Diário de Aveiro.
É chamado aqui, pelo facto de, na qualidade de presidente da associação de pais do infantário de Cacia, ter sido esta questão a base de fundamentação de um abaixo assinado entregue ao governo civil, cma, estradas de portugal e junta de Cacia, há cerca de 3 anos.
Finalmente, embora no nosso entender sem ser a melhor solução, veio a resposta prática.
Com a devida vénia ao Pedro Neves, transcrevo para aqui os comentários que deixei no seu blog.

Permite-me, desta vez, discordar inteiramente contigo.
A Associação de Pais do Infantário de Cacia (da qual sou presidente) já há cerca de 3 anos, enviou um abaixo assinado para o Governo Civil, CMA e Estradas de Portugal - Aveiro, a solicitar uma solução para o cruzamento em causa (que não é de Sarrazola - esse local da freguesia de Cacia fica do outro lado da linha. Ali é mesmo para Cacia).
E isto porque muitos dos pais de crianças que frequentam aquela instituição foram vitimas de acidentes (felizmente sem consequências graves) naquele ponto.
Só que, conforme podes comprovar ao pesquisares em estudos de mobilidade e acessibilidade, o que foi sugerido era uma rotunda (até porque existe espaço para a construir) pela comprovado fluidez de trânsito, ao contrário da semaforização que é mais congestionante.
E, salvo raras excepções (como o caso da rotunda da policlínica - por incúria automobilística), os semáforos são mais propícios à sinistralidade do que as rotundas. Vê, por exemplo, o que acontecia anteriormente com os cruzamentos semaforizados do pingo doce e do eucalipto (tanta gente que lá perdeu a vida) e analise a fraca ou quase ausente sinistralidade actual com as rotundas e as desniveladas.

(...) adianto ainda:
1. É óbvio que em primeiro lugar deve vira a segurança das pessoas. Se bem que entendo que aquele cruzamento semaforizado não é a melhor solução, pelo menos "poderá" atenuar a insegurança actual.
No entanto, deixa-me referir que a mobilidade rodoviária não é apenas segurança. Não me parece que, dado o volume de tráfego na EN 109, esta solução contribua para a sua fluidez... bem pelo contrário.
2. Refiro-te ainda, que no abaixo assinado que indiquei no comentário anterior, (...), foi indicada outra sugestão: a colocação de outra rotunda no cruzamento do Solar das Estátuas e a proibição de, entre as rotundas, virar (ou cruzar) à esquerda na EN 109. Como exemplo para percebermos o que disse: se viesses de carro da fábrica da renault em direcção a Aveiro e quisesses ir às bombas de gasolina da Bongás (que ficariam do teu lado esquerdo), terias que ir até à hipotética rotunda do Solar das Estátuas e voltar em direcção a Cacia.
Porque a sinistralidade naquela via, não é só nos cruzamentos, é também derivada a permissão de cruzar com viragem à esquerda o eixo da via.

21 novembro 2005

Sentido Proíbido

Comemorou-se ontem (20.11.05) o "Dia Mundial em Memória das Vítimas das Estrada". Segundo notícia do DN, a Organização Mundial de Saúde refere-se a Portugal com o país da união europeia com a maior taxa de mortalidade rodoviária. Em 2005 já faleceram nas estradas portuguesas cerca de 950 pessoas (não são contabilizados os feridos graves que perdem igualmente a vida, fruot da sinistralidade). Se estudos apontam para um decréscimo da sinistralidade em cerca de 3% devido à renovação do parque automóvel (apesar do aumento constante do custo de aquisição de automóvel), da assistência médica e do aumento da rede de auto-estradas que resulta num melhoramento da rede viária. Assim sendo... onde para a responsabilidade dos outros 97%?! Na falta de civismo, na má preparação técnica para conduzir, na irresponsabilidade quando nos sentamos ao volante. A responsabilidade é de todos os que conduzem e percorrem as nossas estradas. Não vale a pena 'sacudir a água do capote'. A responsabilidade é nossa: dos condutores. Cada português condutor, quando ao volante, desperta em si um sentimento esquisito de complexo de identidade. Sentimo-nos logo transfigurados em Fangio's e Schumacher's. E isto porque o português sempre que se senta ao volante tem muita pressa, mesmo que vão adiantados. Não há limites de velocidade, regras de ultrapassagem, riscos continuos... só há os outros - os que vão mais devagar - os empatas... É fundamental que a educação rodoviária acompanhe a educação escolar bem cedo. Mais importante que o ensino do inglês!