“Debaixo dos Arcos” foi, e ainda é, o primeiro blogue não virtual de Aveiro. Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada": o centro do mundo...

08 fevereiro 2006

A Polémica do desenho.

E o ridículo chegou ao ponto de se efectuar uma manifestação de solidariedade para com a Dinamarca. (vi e li aqui, aqui e aqui).
Mas porquê?!
Foi a Dinamarca que publicou os desenhos?!
E porque razão se apela ao espírito solidário e comunitário dos portugueses, sabendo-se que existem muitos (para não dizer a maioria, porque não consegui telefonar a todos) que estão contra a publicação efectuada?!
Nesta questão das liberdades, como em qualquer outra questão, existe para mim um conceito que parece deveras esquecido: as liberdades (sejam quais forem) terminam quando começam as liberdades dos outros. Ou ainda, as liberdades devem coexistir com as outras liberdades.
E as próprias liberdades têm limites. Contrariamente, não viveríamos em liberdade, em democracia, em pluralismo, em respeito mútuo, mas sim em anarquia absoluta.
Quando a liberdade de expressão colide com o princípio do respeito ou da ofensa, não parece que tenha a legitimidade de ser expressa.
E não é só a questão do respeito pela liberdade religiosa e a ofensa (grave) ao islamismo.
Só quem é ingénuo é que acredita que os cartoons foram inocentes, foram meros exercícios de criatividade lúdica ou simples satírica. Foram publicados com um claro sentido anti-semítico e racista.
Que coerência e legitimidade temos para, por exemplo, vir agora criticar o jornal do Irão que se lembrou, a coberto da tal liberdade de expressão, solicitar a tarefa de alguém desenhar um cartoon a ironizar as vítimas do holocausto.
É esta a liberdade que queremos a coabitar connosco?!
A da falta de respeito pela liberdade dos outros, do bom senso e do olho-por-olho?!
Obviamente que condeno toda e qualquer violência ou resposta pela “arma” da agressão, do medo e da hostilização. Mas quem ofendendo não esperaria a resposta extremista do fundamentalismo (seja ele religioso, político, cultural ou desportivo), vive num perfeito sono “naïf”.
E quem “livremente” publicou e desenhou tais ofensas e agressões, não pode a coberto do dogma da liberdade de expressão deixar de assumir as consequências dos seus actos.
Ao não assumir tal facto pactuará com a desconfiança que os desenhos foram claramente usados para ofender e, psicologicamente, agredir.
A ofensa não foi dirigida apenas ao extremismo e radicalismo muçulmano. Mas a todos os que acreditam que o Islão e o Alcorão são de paz e pacíficos.
A todos os que estão cansados de serem constantemente apelidados de terroristas, sem que nada tenham contribuído para tal (antes pelo contrário).
Deste lado, continuamos com aquele sentimento de superioridade civilizacional que, às vezes produz conflituosidades do género, para as quais depois não se tem solução e carácter para assumir o que se afirma como não errado.
Espero sinceramente que a “guerra” por aqui se fique.
Pela liberdade de uns e de outros… pela liberdade de todos.

6 comentários:

Rui Baptista disse...

Lamento. Mas este texto é de uma ingenuidade inacreditável, para além de conter alguns erros de facto. Que te deixes contaminar pelo politicamente correcto é coisa que me surpreende. Há que escolher um dos lados da barricada. Eu escolhi o meu. Abre os olhos: o Islão está em guerra com o mundo. Com o meu mundo, com o teu mundo. O nosso mundo. RB

Terra & Sal disse...

Reconheço que o Islão está em guerra com o mundo, assim como parece, que o mundo está em guerra com o Islão.
O mundo é efectivamente um bem comum, que se deve viver plenamente, no respeito das suas mutabilidades, que devemos respeitar, como uma força da “natureza” de que é composto.
Só podemos usufruir dele, como de tudo, dentro do equilíbrio que a própria “natureza” impõe a todos, e a cada um em particular.
Depois, não vejo ingenuidade no comentário, nem o politicamente correcto, que há partida, aqui, não tem lugar.
Vejo um pensamento profundo e descomplexado do estar de uma Razão que demonstra nobreza de sentimentos, sensibilidade e respeito pelos outros, na sua forma de estar na vida, e no respeito para consigo próprio, o que, diga-se, é gratificante.
A nossa conduta e condição de “evoluídos” de não darmos valor ao sagrado dos outros, penso que lhes transmite a ideia de um comportamento animalesco, logo irracional, que não aceitam.
Nunca entenderão, e esses comportamentos, tentam à sua maneira corrigir, assim como outros, e de outros modos, tentam em vão, a eles corrigir.
Assim como nós não os entendemos, eles também não nos entendem a nós.
Mas que há forças da “natureza” em que não se devem mexer há, e pelos vistos estão bem à vista.
Cumprimentos.
Terra & Sal

migas (miguel araújo) disse...

Amigo Rui
Primeiro as minhas boas vindas a esta casa. Usa-a e abusa quando o entenderes. è com agrado que receberei as tuas visitas.
Passada a "esponja" e a "graxa", é tempo de 'polemitizar'.
Não tenho que criticar as tuas escolhas. Como é óbvio são as tuas opções e convicções.
Mas dá-me, pelo menos, o direito (ou melhor) a liberdade de discordar e ter as minhas.
Eu não tenho que escolher nenhum dos lados da barricada. Porque não tenho que apoiar qualquer guerra, seja ela qual fôr.
Não apoiei o Kosovo, o Afeganistão, o Golfo e agora o Iraque, como não tenho que apoiar Israel ou a Palestina, o Irão, o Iraque (do outro lado), a Síria, o Kosovo, o IRA, a ETA, a Al-Kaeda, etc. etc.
Não tive que apoiar a Unita-MPLA, os conflios em àfrica ou nalgumas antigas repúblicas ex-soviéticas, etc. etc.
Não apoio qualquer tipo de guerra, seja ela qual for.
Por outro lado, defendo o princípio de quem semeia ventos colhe tempestades.
E reafirmo tudo o que escrevi no postal.
Porque ingenuidade está em acreditar na inocência do acto "criativo" dos cartoons e na sua publicação. Muito menos na ausência de contexto editorial (acho que do ponto de vista jornalístico, não estou a dizer nenhuma "bacorada").
A ausência de regras (muito diferente da censura, a qual abomino totalmente) leva a absolutismos e anarquismos com os quais não pretendo viver e aceitar.
Independentemente de achar que o Islão não serve a ninguèm, pela ausência de respeito e elementares direitos humanos, pelas opressões e muito mais coisas que me levariam a alongar demasiado, entendo que isso é um problema interno da prórpia comunidade islâmica e da sconvicções de cada muçulmano; entendo que o Islão não pediu qualquer censura ou abolição do direito à liberdade de expressão... apenas pediu respeito.
É fácil falar dos outros. Mas quando nos toca a nós, os princípios que defendemos muito rapidamente se esvaiem. Quantos de nós já não censurámos comentários nos nossos blogues?! E porquê?! Pela Liberdade de Expressão?!!!!
Quantos casos conheces tu, pela tua execelente carreira profissional (e agora não estou a dar graxa, porque sempre gostei de te ler no público e ver na rtpn-tvn), de processos judicais por difamção e blasfémia pessoais?! De certeza que muitos mais que eu?!
mas concordo inteiramente com a tua conclusão: este é o nosso mundo... mas de todos!
Aparece mais vezes.
Um grande abraço

migas (miguel araújo) disse...

Quanto às sábias palavras do caríssimo Terra&Sal, destaco uma das suas afirmações, por questão de comprovação editorial e de administração deste blog:
o politicamente correcto aqui, não tem lugar.
Palavras de uma visitante assiduamente reconhecido.

RM disse...

Caro Migas,
Concordo contigo.
No meu entender acho que há grupos extremistas minoritários (de ambos os lados)que consciente ou inconscientemente (?) nos querem arrastar para uma escalada de consequências imprevisíveis e esta história dos cartoons é só um pretexto. Outros se seguirão. E nós que, assumidamente, somos contra a guerra não nos devemos acobardar e calar as nossas opiniões a favor do politicamente correcto.
Força!
Um abraço amigo
Raul Martins

Helena Thadeu disse...

A partir do momento em que os EUA não começaram esta guerra porque queriam oferecer a democracia aquele povo, tudo o que se passa à volta deste acontecimento é hipocrita e sem nexo. Tudo isto é politica, e arrisco-me a dizer que o cartoonista é uma especie de terrorista ocidental, a lançar mais lenha para a fogueira, porque sabe (quem não sabe?) que do outro lado iria reagir forte e feio. Extremar reações e atitudes não leva a lado nenhum. Agora não me peçam para pôr-me num lado da barricada. Não nutro qualquer simpatia pela pseudo europa nem pelo mundo islão. Não concordo com os actos terroristas nem com os cartoons. Não achoq ue os terrosristas representam o mundo islão nem os cartoons toda a Dinamarca.
Não pactuo com estereotipos nem com racismos escondidos.