“Debaixo dos Arcos” foi, e ainda é, o primeiro blogue não virtual de Aveiro. Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada": o centro do mundo...

19 outubro 2006

É da praxe... actualizado

Iniciado mais um ano lectivo, a polémica Praxe do costume.
Ou uma Praxe, sem costume.
Uma ressalva. Não sou contras as Praxes. Sou contras estas Praxes.
(publicado na edição de hoje - 19.10.06 do Diário de Aveiro).

Post-its e Retratos
Praxes… Integração humilhante!

Uma das preocupações actuais da Presidência da República reside na problemática da inclusão, em toda a sua abrangência.
Inclusão nos vários sectores da sociedade, incluindo o ensino: igualdade de oportunidades, de acesso e de vivência.
A formação académica tem várias facetas de adaptação/integração ao longo da vida: entrada no ensino básico; passagem do 1º ciclo para o 2º; adaptação ao secundário e entrada no ensino superior.
Qualquer destes percursos requer, para além da componente lectiva/pedagógica, um esforço de adaptação/integração a meios e realidades distintas.
A questão das praxes académicas está longe de ser pacífica, porque divide o sentimento universitário e o pensamento estudantil, criando uma verdadeira relação amor-ódio.
O que actualmente, após uma década de “clausura”, se designa por “praxe académica”, nada é mais do que um conjunto de acções “estupidamente” executadas por quem deveria ter a responsabilidade de acolher, integrar e ajudar a adaptar os novos colegas. Algumas dessas acções chegam ao ponto de serem equiparadas à lista de delitos, mesmo que comuns e legalmente puníveis, como são os casos conhecidos da escola Superior de Santarém e do Instituto Piaget de Macedo de Cavaleiros.
Há um conceito quase que universalmente assumido no meio universitário que define a essência da Praxe como um garante de integração social, escolar e cultural dos novos alunos nas universidades ou escolas superiores.
Nada mais que ilusório e longe da verdade.
Os actos e acções praticados durante o processo da Praxe, são humilhantes, carregados de imbecilidades e cobardias, a roçar (se não mesmo incluindo) a violência física e a um autoritarismo incompreensível num sector da sociedade que se quer e se assume como democrático, pluralista e cultural.
E tais situações não são tão raras quanto possamos imaginar. Muitas a coberta da vergonha, do medo e da insegurança, esvaecem com o tempo sem serem publicamente denunciadas.
É no mínimo incompreensível e mesmo contra-natura da essência da formação académica superior este exercício do poder do mais forte(!) – o “doutor” ou o “veterano” – sobre o mais fraco(!) – o caloiro.
É deplorável assistir ao nascer de um dia na semana de recepção aos caloiros a um espectáculo degradante do excesso de álcool, de contestação de violência e da destruição das “coisas” públicas.
Entrar na universidade ou aceder ao ensino superior deveria ser um acto de elevação, de sublinhar um esforço de muito anos e muito sacrifício para atingir uma etapa – quiçá a última, na formação cultural e profissional de muitos jovens. Obviamente, deveria ser uma festa.
Para muitos, tal facto constitui um verdadeiro pesadelo, muitas vezes com a responsabilidade de quem não sabe o que é respeito, solidariedade e verdadeiro espírito académico.
Já não basta a necessidade de acomodação e adaptação a um meio novo, a novas culturas, a novas terras e gentes.
Transformar isso numa selva pelos actos irresponsáveis de “meia dúzia” de selvagens é verdadeiramente inqualificável.
Para que servem então as Praxes?!
Na realidade actual, para nada de relevante, a não ser o exercício deplorável do poder ou da vingança irresponsável.
Até por uma questão cultural e social (e histórica) as praxes não devem desaparecer. São necessárias à integração, adaptação e acomodação da nova realidade para aqueles que chegam pela primeira vez.
O que têm é que ser assumidas de outra forma.
Responsáveis mesmo que irreverentes, criativas, culturais, que permitam o desenvolvimento do companheirismo e da solidariedade. Mesmo através das coisas mais simples como o apoio à actividade lectiva (emprestando apontamentos dos anos anteriores), “mostrando” as cidades ou locais, os espaços de lazer, onde se come mais barato, auxiliando no processo difícil de encontrar alojamento, etc.
O que parece igualmente relevante é que os movimentos estudantis não conseguem ser suficientemente criativos para encontrar alternativas capazes e válidas ao contexto actual.
Assim sendo, resta ao caloiro a dolorosa tarefa solitária de encontrar capacidades de dizer “Basta” quando a praxe se transforma numa clara imbecilidade.
A Praxe deveria servir a comunidade estudantil e não servir-se dela.
Deveria deixar saudades e não pesadelos.
Pelo espírito académico.
 
(actualização)
Sobre tudo o que quis transmitir no texto e relacionado com todos os comentários aqui deixados, ler aqui - no público on-line (21.10.06)

12 comentários:

Arauto da Ria disse...

Caro Miguel, bom texto e totalmente de acordo, gostei muito.
Também sou conta estas praxes e acho que se não mudarem os procedimentos deviam acabar.
Um abraço

João Branco disse...

Caros amigos Migas e Arauto da Ria:

Terei de vos responder, como elemento da praxe cordial que me tornei este ano...

A Praxe, como deveis saber, foi criada com o intuito de integrar os novos alunos no curso e no ambiente académico em que mais fácil ou mais dificilmente se vão inserir... e não para criar espécies de humilhação ao mesmo...

E vos digo, que é nesse espirito que praxo há precisamente um mês...
Praxo para possibilitar aos caloiros uma aprendizagem mais assimilante dos valores que eu próprio me apercebi durante quase 14 meses de Coimbra, enquanto estudante do ensino superior...

Agora, não nego que há abusos nas praxes...
Todos nós sabemos que sim, porque haverão sempre, e desculpem-me o termo, idiotas de capa, batina e pasta a fazer o pior possivel dos caloiros...

E esses, se não sabem praxar, ficam em casa...
E se se sentem com condições mentaie e psicológicas para praxar, que sejam responsabilizados pelos seus actos, quando o seu intuito causar dolo ao caloiro que praxa...

Migas (miguel araújo) disse...

Oh meu amigo João.
Com que então um mesito sem aulas e a massacrar o povo.
Ainda bem que assim pensas.
Porque é precisamente disso que estamos aqui a falar.
Das imbecilidades e do desnexo da maioria das praxes.
Ninguém é contra as praxes na sua essência, nos seus objectivos mais elementares.
Aliás, tal não se aplica exclusivamente às Praxes Académicas.
Há Praxes nos Colégios, nos seminários (esses sim, os dos padres), na tropa, nos empregos, até se calhar na Assembleia da República, etc...
A questão passa pelo sentido e pelas acções das Praxes.
Então um bom ano para ti, que o meu já começa para a semana.
à-fé-rriá
Boas Praxes.

AC disse...

O pior destas imbecilidades é que se incorporam na nossa forma de estar e acompanham-nos pela vida fora. As forças militares ou militarizados são um bom exemplo disto. Quem vem de novo, volta a sofrer humilhações várias, faz as tarefas que os outros deveriam fazer, mas acham-se com direitos de isenção, trabalha mais do que os que já lá estavam e por aí fora, justificando-se estas atitudes deploráveis com o conhecido: A velhice é um posto!

E em vários sectores da nossa vida é assim, por isso; de pequenino é que se torce o pepino.
Cpts.

Nuno Q. Martins disse...

Tema interessante, caro Miguel.


Conheço um pouco da praxe que se pratica em Aveiro e não gosto. Fazem-se brincadeiras (algumas estúpidas, outras inofensivas) sem qualquer nexo, sem razão teleológica perceptível. Cada "doutor" puxa para o seu lado e faz aos caloiros o que lhe dá na telha.

Por outro lado, conheço muito bem a praxe de Coimbra. Também lhe reconheço, aqui e ali, alguns abusos injustificaveis. Contudo, tornei-me um defensor da mesma. Na Faculdade de Direito tive bons mestres da praxe, pessoas que conheciam o Código da Praxe (em Aveiro nem sei se existe) melhor que o Código Civil ou o Penal e aplicavam-no na plenitude.
Escusado será dizer que o dito código salvaguarda os caloiros e confere uma finalidade às praxes em sentido "técnico", fundamentando-as. O "doutor" que conheça bem o Código e o saiba aplicar não viola nenhum direito, liberdade ou garantia do caloiro; e mais, estará apto a justificar ao caloiro a execução de determinada praxe.

Em jeito de síntese, subscrevo a ideia geral do texto. No entanto, não poderia deixar de fazer esta ressalva no caso em concreto que melhor conheço, embora, reconheça - já me estou a repetir - que a praxe é sempre propícia a abusos. Ainda assim, no caso específico de Coimbra, ainda penso que os "prós" são mais que os "contras".

Um abraço.

Susana Barbosa disse...

Caro Miguel,

Plenamente de acordo com o que escreve. E também ainda: "Não sou contra as Praxes, sou contra estas Praxes"! Por vezes, o que poderia ser uma diversão saudável passa a brutalidade. Haja bom senso!

João Branco disse...

Meus amigos, tenho de voltar a intervir:

Caro Migas:

Também não exageremos... Não estou a praxar os putos, há um mês sem interrupção... mas de vez em quando lá sofrem um bocadito e lá vão contar pela 25ª vez as Escadas Monumentais a palito...
Agora, como disse, a responsabilidade é daqueles que não sabem praxar, ou que utilizam a praxe para nos mais novos descarregar as suas frustrações pessoais...

Um grande ano para ti, que o meu já começou á 3 semanas...

Nuno Quintaneiro:

Tu como bom estudante de Coimbra, e como antigo cliente daquela tasca que chamam de FDUC, já praxaste!!!

Tiveste bons mestres da praxe, eu cá não, e como te disse um dia apanhei a maior bosta da praxe daquela Faculdade que são aquelas tertúlias que lutam entre si pelo NED\AAC e metem os caloiros ao barulho sobre a luta deles...

Eu conheço o código da praxe minimamente e minimamente aplico-o nas praxes que executo, dando-o também a conhecer ao caloiro, por exemplo, quando ele apanhar uma trupe, como se pode livrar dela e até desmantelá-la...

Agora, claro, a praxe é sempre dada a abusos, porque há tipos que nem de capa e batina haveriam andar, porque a atitude deles desprestigia uma instituição com 8 séculos de história e existência que é a UC...

Migas (miguel araújo) disse...

Meus caros visitantes
A melhor resposta está no lik da actualização do post - mesmo aqui ao lado, na UA.
Contra factos, começam a rarear os argumentos.
Cumprimentos

Francisco Dias disse...

Apenas uma informação adicional. A Universidade de Aveiro tem um código de praxe. Do ter ao ser respeitado vai uma grande distância. Até porque muitos dos que praxam desconhecem a sua existência.

Conhecendo eu bem as praxes das academias aqui referidas, posso dizer que as de Aveiro são na generalidade bastante inofensivas. Nada que com espírito de brincadeira não se leve sem problemas. Agora, importa dar a liberdade de cada um escolher ser quer ou não ser praxado. Conheço casos de pessoas que foram pedir para serem praxadas, e outros que simplesmente não estão praí virados. Tudo passa pelo respeito da vontade das pessoas, o que nem sempre acontece. E isto é verdade no meio académico bem como nos restantes meios da vida civil.

Mais, em Aveiro não existem "trupes", que são das maiores aberrações no meio da praxe.

Saudações académicas.

João Branco disse...

Fd:

Uma informação adicional...

As trupes foi uma maneira da tradição de Coimbra, obrigar os caloiros e ( atenção) os 2ºs anistas a estarem em casa cedo para no dia seguinte irem ás aulas ( 24.00 a hora prevista para os caloiros irem para casa, para não serem apanhados por uma trupe, 1.00 para os de 2ªmatricula que também por ela podem ser penalizados)...

Portanto, não vejo aberração nisso, caro FD...

Francisco Dias disse...

As tradições são uma coisa bonita sim senhor. Já agora, o que fazem as trupes aos caloiros apanhados para lá da meia-noite? E por que razão não poderá um caloiro ir tomar um copo até à 00.30 se lhe apetecer? A teoria é bonita, já a prática prova o contrário.

Cumprimentos.

João Branco disse...

As trupes quando apanham os caloiros para lá da meia-noite, rapam-lhes os cabelos, o que desde já muito raramente acontece...

Aos alunos de 2ª matricula, dão nas unhas com o próprio sapato, caso o chefe de trupe tenha 4 matriculas... o que também raramente acontece...

Mas o caloiro pode desafiar o lider de trupe para um duelo de boxe, ou se vir um bocado de branco á mostra de um elemento da trupe automáticamente desmantelá-la, como até ter protecção de veteranos ou de baco ( isto caso se apresente bebedo perante a trupe...

O caloiro pode ir sempre tomar um copo, agora tem é de ter cautela por onde passa porque as trupes escondem-se em sitios especificos...